Esfregando-se no arquivo: Caroline Valansi
“Sensual” não é uma palavra que se costuma associar a arquivos. Tornaram-se bastante comuns, nos últimos trinta anos, as apresentações arquivísticas feitas por artistas e que costumam seguir uma certa estética que envolve vitrines ou mesas com recortes de jornais, ou livros e impressos dispostos de forma ordenada. Quer o artista esteja trabalhando com um arquivo existente ou criando uma nova coleção; quer esteja criticando uma reivindicação de autoridade ou trazendo à tona uma história desconhecida, há, muitas vezes, uma certa solenidade ou peso atribuídos ao trabalho, qualidades ligadas à função principal do arquivo, que é a de salvaguardar o conhecimento. Ainda assim, é apropriado que outras ideias nos venham à mente quando olhamos para as obras que Caroline Valansi produziu a partir de suas interações com o arquivo dos cinemas de rua que sua família administrava no Rio de Janeiro.

Boca, da série Peles, 2021. Cartazes originais de filmes pornográficos anos 70 e 80 e madeira, 65 x 95 cm

Da série Corpo Cinético, 2018. Fotografia, 90 x 63 cm
Caroline trabalhou com um verdadeiro tesouro deixado após o fechamento dos cinemas de rua: rolos de filme, cartazes, fotos, selos para anúncios de jornais, além de equipamentos de projeção, letreiros e muito mais – materiais com uma história tão rica que foram capazes de sustentar dez anos de pesquisa e produção. Alguns objetos foram doados à Cinemateca do Museu de Arte Moderno do Rio, mas todo o restante catalisou um processo de digestão e transformação na prática de Caroline. Ela nunca abordou os materiais com reverência, nem os tratou como conteúdo isolado; em vez disso, ela trabalhou diretamente com os quadros e pôsteres de filmes antigos em várias séries, sampleando-os para produzir novos desenhos ou objetos. A quantidade de documentos – é possível, por exemplo, que ela tenha 100 cópias de um mesmo pôster – permitiu que ela trabalhasse suas ideias sem se preocupar muito com o que estava usando. Dessa forma, ela estava livre para processar formalmente o conteúdo.
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Caroline se concentrou nos filmes pornográficos que ocuparam as telas dos cinemas a partir da década de 1970 e no fechamento desses espaços na década de 2010. Ela voltou seu olhar especialmente para as mulheres em filmes pornográficos, a fim de explorar as representações do desejo feminino. Os filmes foram todos feitos principalmente para a satisfação do desejo masculino, mas ela os aborda por meio de um “olhar feminino”: um olhar que considera a mulher como protagonista na busca do próprio prazer. Para Caroline, essa busca não se restringe apenas ao âmbito sexual, mas abarca também a vida da mulher, o seu potencial em outras áreas: no trabalho, na família e na sociedade. Diz respeito a que mulheres possam fazer o que quiserem: é uma posição inevitavelmente política. A crença na capacidade da mulher de agir livremente e buscar o prazer é expressa em seu trabalho de forma direta e celebrativa. Há explorações sensoriais e abstratas de intimidade e erotismo, e há também imagens e textos sexualmente explícitos.
Por vezes, Caroline criou trabalhos inspirados no âmbito do cinema, mas também independentes dele. Ela, por exemplo, entrevistou mulheres atuantes no ambiente online sobre estereótipos morais e sexuais, e também coletou descrições de sensações sexuais entre seus amigos e conhecidos, depoimentos que resultaram em vários trabalhos. De fato, muitas das obras de Caroline vão além da história específica dos cinemas de rua e falam muito mais sobre o momento atual. Os pôsteres da série Pornográfico Político, por exemplo, são adaptações de cartazes originais de filmes da década de 1970 que comentam a situação sociopolítica brasileira atual. Isso talvez explique por que os curadores incluíram tantas vezes essa série em exposições no Rio de Janeiro durante os últimos turbulentos anos políticos. Isso mostra que Caroline aborda o arquivo de cinema de rua a partir de um desejo contemporâneo e criativo que considera o que esses materiais significam para nós agora.

Mulher de princípios (Michele), da série Boa Para, 2015. Álbum de figurinhas, 10 x 7 cm (cada)

O crime compensa, da série Pornografia Política, 2015. Serigrafia, 70 x 50 cm

Cinema Tijuca 1 e 2. Tijuca, Rio de Janeiro, da série Cinema Também é Templo, 2016. Fotografia


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Pode-se então insistir nessa pergunta: o que esses materiais significam para a artista, e por que ela continua voltando a esses resquícios de representações pornográficas, quando ela é claramente uma defensora de uma visão mais plural e atual da sexualidade?
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Talvez houvesse algo mais que ela descobriu no arquivo, algo que responde a outra busca paralela à busca contemporânea pela agência sexual feminina: uma relação mais direta, tangível e afetuosa com a sexualidade representada pelos materiais de arquivo. Os documentos que informam a obra de Caroline funcionam de duas maneiras: são marcadores de uma fricção entre visões antiquadas e atualizadas sobre a sexualidade; ao mesmo tempo, a artista claramente se esfregou nelas com muito gosto. Houve um prazer no processo de criação dessas obras que é inconfundível quando você as contempla: ao longo dos anos, por exemplo, Caroline voltou várias vezes aos pôsteres de filmes, cortando-os, transformando-os em colagens, colocando-os em camadas, dobrando-os, retrabalhando-os de maneiras diferentes. As várias séries que daí resultaram aparecem não tanto como uma desconstrução ou crítica, e mais como casos de amor felizes entre a artista e o material.
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Da série Pulsar, 2022. Cartazes originais de filmes pornográficos anos 70 e 80, 66 x 50 cm
Da série Cinema Fantasma, 2024-25. Impressão em relevo seco sobre papel pintado com tinta madrepérola e tinta fosforescente
Para entender melhor essa relação afetiva, remeto-me à relação de outra pessoa com os cinemas pornográficos de rua cariocas: o escritor Luís Capucho, antigo frequentador assíduo destas salas, publicou um livro que coloca a história de sua vida no contexto das suas passagens pelo Cine Orly, nos anos 80. Lá, na escuridão do cinema, ele se encontrava com outros homens. A essa altura, o Cine Orly havia se tornado um ponto de encontro para a comunidade gay, embora fosse obscuro e sujo. A relação com o espaço cinematográfico que Capucho descreve no seu livro é sobretudo movida pelos seus impulsos sexuais – ele fala dos cheiros, dos movimentos naquele espaço sombrio, das partes do corpo explodidas no grande ecrã, dos seus sentidos aguçados; mas essas experiências sexuais estão ligadas a uma grande afeição pelo Cine Orly, que se torna o eixo em torno do qual gira uma história queer de intimidade que ainda raramente é contada.
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Quando Capucho publicou a sua homenagem ao Orly, em 1999, os cinemas pornográficos já estavam no fim da linha. Demoraria só mais dez anos para que o Orly e os outros cinemas de rua fechassem as portas para sempre. O advento da internet estava acabando com a necessidade de tais espaços sociais. Nossa relação com o sexo também estava mudando rápida e drasticamente, mesmo para aqueles que não gostavam daqueles encontros. O consumo sexual tornava-se menos dependente de um local e horário específicos e começava a ser superabundante nas telas privadas. Também se tornava cada vez mais mercantilizado, fragmentado e alienado. Agora, no ambiente online, o conteúdo sexual está mais disponível do que nunca. Ao mesmo tempo, estudos mostram que os jovens estão fazendo menos sexo do que as gerações anteriores.

Capa do livro Cinema Orly, do Luís Capucho, 1999
Dessa forma, podemos perceber que o fechamento dos cinemas pornográficos de rua faz parte de nossa história recente de mudanças nas relações sexuais. São mudanças complexas, ainda não totalmente compreendidas, que também trouxeram avanços importantes: agora há, por exemplo, maior compreensão coletiva sobre consentimento e mais aceitação de identidades de gênero plurais e fluidas, mesmo que ainda tenhamos um longo caminho a percorrer. Não há, portanto, necessidade de ser nostálgico em relação ao passado; mas duas coisas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo, e as obras de Caroline carregam essa carga dupla.
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Afinal, um arquivo não guarda apenas saberes e histórias, guarda também sentimentos. Os rolos de filme, cartazes e selos que Caroline encontrou evidenciam materialmente as muitas histórias, experiências e sentimentos ligados aos cinemas de rua, e, através de seu trabalho, eles se multiplicam e se abrem para ainda mais leituras possíveis. As suas obras convidam-nos a aproximarmo-nos – ora como voyeurs, com atenção focada nos detalhes, às partes emaranhadas do corpo; ora a reorientar, imaginar, ajustar o olhar. Suas obras nos fazem olhar com mais cuidado, atenção e carinho, para que nos lembremos de que o sexo não é apenas uma luta pela realização de um ou outro gênero, mas uma conexão com uma pessoa, com um lugar, e é ativo e responsivo. É um ato potencialmente transformador.
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2023. English version here.
Leia um texto escrito anteriormente sobre a obra de Caroline Valansi, publicado na Revista Select, aqui.